segunda-feira, 4 de julho de 2011

EU E MEU MESTRE

Capoeira - Eu e Meu Mestre


Por Inez Motta

01 de julho de 2011- Texto 1



Hoje vi meu Mestre, no terreiro Senzala. Ilé de bamba...

Hoje vi o meu Mestre, e deu vontade de contar esta história...

Sempre penso que vontade é coisa que impulsiona o ser para ação no devido tempo que ela deve ser feita.

Hoje vi o meu Mestre. Não era um simples sentimento, e nem um grande amor. Era uma constatação, ele estava ali na minha história e me dei conta que não saiu dela. Dei-me conta também que dá vida dele nunca fui embora.

Percebi que aquele momento se transformava em informação pessoal. Ele é o senhor e o escravo. Ainda nesta semana passada, ele havia me perguntado: - Então eu quem sou o escravo? Que ironia, mas sim, agora era líder e exato, era agora um escravo. Escravo da história que escreveu e que debruçou sobre os ombros uma gama de guerreiros e guerreiras a espera do seu..”Grito”(?). Grito de guerra pela vida, que ironia... ele estava sem voz. Comandante sem verbo, espírito andante errante que ao sorri consegue fazer sem errar.

Eu e Meu mestre. Esta história já se escreve há 36 anos e começa no ano 1975, onde me encontro com a capoeira numa Academia do Sindicato do Fumo na Tijuca, com o Mestre Roni, mestre que como muitos, morreu mendigo, sem casa e sem terreiro para deitar. Lá em meu primeiro dia de aula, junto com minha amiga Leyla, sou recebida por Mestre Roni e seus alunos Tony( assim ele assinava) e César. Minha amiga vai aprender a gingar com o César e eu traçava o meu eterno destino com o meu mestre Toni Vargas.

Ele era vigoroso, inteligente, capaz de movimentos que exemplificavam a forma mais encantadora que um capoeira possa precisar para se admirar. Seu cantar acordava um voz em meu peito que dizia que alguém estava lá dentro dormindo. Ali eu começava a tirar a energia do chão e transformá-la em energia cósmica que misturada àquela energia natural, traçava um história de idas e vindas que jamais se desentrelaçaram no decorrer do tempo.

Sei que minha narrativa está meio poética, mas está história é um poema.
Nos ano seguinte o meu Mestre foi treinar com Mestre Touro, e eu com Mestre Valdemar Santana da Tijuca. Lá meu mestre foi umas duas vezes.
Contou-me que ia para Copacabana treinar no Grupo Senzala, perguntou se eu queria ir, mas eu nem podia pegar ônibus sozinha, quanto mais treinar longe de casa. Em 1977 o meu mestre foi para Travessa Angrense em Copacabana treinar com Mestre Peixinho e ai já sem saber se a capoeira era ele ou ele era a capoeira, fui até onde podia.

Ingressei no Grupo Senzala então também no ano de 1977, no Clube Santa Luzia no centro da cidade com Mestre Camisa, pois o treino era ao lado do trabalho de minha mãe e eu ia e voltava com ela. Em 1979 abalada com a morte do graduado Índio, sai da academia e me mudei para Arraial do Cabo e parei os treinos até 1981, quando retornei ao Rio , voltei a treinar e agora sim, diretamente com meu Mestre que já tinha um horário próprio de aula na Travessa Angrense.

Não vou relatar sentimentos durante todas as jornadas, pois a capoeira me trouxe muita alegria e muita tristeza na caminhada, e reviver os acontecimentos será estornar sensações que não convêm voltar. O fato é que o meu Mestre estava ali com todas as características de sempre. Vigoroso, inteligente, capaz de movimentos que exemplificavam a forma mais encantadora que um capoeira possa precisar para se admirar. Seu cantar acordava um voz em meu peito que dizia que alguém estava lá dentro dormindo.

Neste momento apesar de eu já ter sido “batizada” no grupo Senzala em 1977 pelo Contra –Mestre Washington, e muito ter aprendido ali, começava de verdade a viver a fraternidade da capoeira. Os alunos iam e vinham, mas a família ia nascendo com a cara do patriarca e assim foi sendo até os anos 90, onde com a entrada dos agregados a família, começou-se o processo de adoção e adaptação. Meu mestre durante este tempo teve suas crises por conta destas coisas que se referem à família e se afastou fazendo trabalhos individuais até encontrar o caminho de volta e assumir seu lugar e sua voz neste processo. Época em que já casada, me mudei para Ubá/MG, início dos anos 90 que muito colaborou para esta reaproximação que nos sucedeu.

Eu e meu mestre e amigo de juventude, tivemos diversas divergências. Ele pra mim, um Deus, e como tal onipotente. Eu, uma guerreira de frente, almejando o lugar de deusa em seu exército. Os caminhos foram muitos numa jornada de aprendizagem que pudessem me direcionar os passos para seu destino. Hoje, olhei o meu mestre marcado de muitas perdas e vitórias e vi seu olhar cansado de ver o mundo todo a sua frente pelo ar, mas sem um tapete para pisar. Ao seu lado muitos guerreiros pisoteavam o chão fazendo subir energias que traçam no firmamento que o terreiro está vivo.

E por trás do cansaço, eu vi meu mestre sempre vigoroso, inteligente, capaz de movimentos que exemplificavam a forma mais encantadora que um capoeira possa precisar para se admirar. Seu cantar acordava um voz em meu peito que dizia que alguém estava lá dentro dormindo. E joguei a capoeira que emana dele e do toque de seu berimbau que sempre tocou a minha canção guerreira e me motivou a nunca nada da vida desistir.

Iê! VIVA MEU MESTRE!

Inez

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

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